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Domingo - dia de descanso, reflexão e estratégia

Domingo, 07.12.14

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Domingo – estamos a meio da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em Lima. É dia de folga na COP! O recinto está fechado e aqueles que podem usam a manhã para fazer uma pequena visita ao centro de Lima. Com 10 milhões de habitantes, a capital do Perú é um verdadeiro desafio em termos de mobilidade. Os autocarros que fazem o transporte dos hotéis localizados em vários bairros, principalmente Miraflores e San Isidro, demoram mais de uma hora para chegar ao Quartel do Exército onde foi montada toda a infraestrutura da Conferência, mas hoje o trânsito está quase ausente.

Durante a tarde, pelo menos para as organizações não governamentais de ambiente e desenvolvimento, membros da Rede Internacional de Ação Climática, é tempo de fazer o balanço da primeira semana e definir a estratégia para a segunda e decisiva semana, já com a presença dos ministros a partir de terça-feira. Os textos previstos da parte dos líderes das áreas de trabalho pré-2020 e pós-2020 (isto é, supostamente antes e depois do desejado Acordo de Paris entrar em vigor; designadas working streams 1 e 2 , respetivamente), afinal já só vão ser apresentados segunda-feira.

Nesta conferência olhamos para múltiplas distâncias – como atingir o pico das emissões de gases com efeito de estufa antes de 2020, de modo a garantir um aquecimento global inferior a 2 graus Celsius em relação à era pré-industrial, quais as bases, os compromissos, e a natureza do vínculo das metas do desejado Acordo de Paris, onde 2025 e 2030 são os anos em causa, e ainda uma perspetiva de longo prazo: como estaremos em 2050? conseguiremos ter uma economia carbono zero nalguns países desenvolvidos? os combustíveis fósseis conseguirão mesmo deixar de ter o peso atual como desejável, dando o total protagonismo às energias renováveis?

Os próximos 5 a 6 dias serão muito importantes para percebermos quão longe vamos estar do necessário – sim, porque não tenhamos ilusões em relação ao que sairá de Lima e de Paris… mas podemos também ver ao contrário, e olhar para o copo meio cheio – quão melhor estaremos em relação à situação atual em que apenas temos um Protocolo de Quioto praticamente europeu (em termos de países desenvolvidos)?

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publicado por Quercus às 22:37

Uma boa notícia, outra má e outra, por enquanto, em 'stand-by'

Sábado, 06.12.14

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 A boa notícia é que no texto de decisão do Grupo de Plataforma de Ação de Durban, sujeito depois a futura aprovação, propõe-se agora como emenda no parágrafo 9, que todas as partes devem comunicar a sua contribuição nacional para o ano de 2025, quando anteriormente o primeiro ano em jogo era apenas 2030, com metas revistas a cada 10 anos. A ideia de metas marcadas a cada 5 anos consignadas no futuro acordo em Paris é fundamental como resposta, inclusive, aos níveis de ambição necessários que têm vindo a ser sucessivamente revistos pelos relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). A posição da União Europeia tem apontado apenas para uma primeira meta em 2030 e espera-se que possa agora alinhar com esta oportunidade criada.

O Fundo Climático Verde pretende apoiar ações de mitigação e adaptação às alterações climáticas, em particular pelos países em desenvolvimento. O objetivo é que este Fundo consiga angariar 100 mil milhões de dólares por ano a partir de 2020, havendo desde já uma angariação de uma primeira tranche para iniciar diversas ações. A má notícia, e uma das recentes questões polémicas, prende-se com a revelação de que há projetos com financiamento proposto que perpetuam o uso de combustíveis fósseis, incluindo por exemplo centrais a carvão. Trata-se de um contrassenso completo no quadro do investimento de uma economia de baixo (ou nenhum) carbono. É fundamental que o Conselho do Fundo rapidamente adote uma lista de projetos que sejam excluídos de financiamento, em particular aqueles que perpetuam o uso de combustíveis fósseis, sempre com elevadas emissões de dióxido de carbono associadas.

A primeira semana da Conferência tem consistido num conjunto de trabalhos em diferentes áreas, sendo que dois grupos merecem destaque – o que está a preparar o texto base para as negociações à escala ministerial a partir de terça-feira tendo em vista o Acordo de Paris, nomeadamente o conteúdo das chamadas contribuições nacionais, os anos a que corresponderão as metas, e o que está a preparar o esforço de mitigação (isto é, de redução de emissões), até 2020. Os esboços dos textos de cada um dos grupos apenas será conhecido amanhã domingo, e ainda serão objeto de alguma negociação até serem terminados para depois passarem à componente de decisão política a um nível mais elevado a partir de dia 9. Por isso, fiquemos em stand-by.

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publicado por Quercus às 20:35

ONG atribuem dois ‘Fósseis do Dia' à Austrália, mas também criticam a União Europeia e a Shell

Sábado, 06.12.14

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No final da semana, foi a Austrália a dominar o galardão “Fóssil do Dia”, com dois primeiros lugares consecutivos na quinta e sexta-feira. Este galardão das ONG para os países com piores prestações, deveu-se, em primeiro lugar, à posição do país na sessão da Plataforma de Durban para Ação Fortalecida (ADP), onde defendeu que o mecanismo de perdas e danos deve integrar-se nas questões de adaptação, em vez de ser uma componente autónoma do futuro acordo de Paris. Esta postura opõe-se à dos países mais vulneráveis aos impactos climáticos, que querem que o futuro acordo preveja as perdas e danos como uma questão autónoma.

Ainda na quinta-feira, a União Europeia conquistou o segundo lugar, após defender um período de compromisso de 10 anos, uma forma óbvia de baixar a necessária ambição no futuro acordo climático. No entender das ONG da Rede de Ação Climática (CAN), devem ser adoptados períodos de 5 anos, o mais tardar até 2025, a fim de captar as dinâmicas de rápida evolução a nível energético e político. [vídeo da entrega do prémio]

Ontem, sexta-feira, a Austrália voltou a destacar-se negativamente, após a ministra dos negócios estrangeiros, Julie Bishop, ter anunciado que o país não vai contribuir para o Fundo Verde para o Clima. Segundo a governante, a Austrália prefere pagar a adaptação às mudanças climáticas das vulneráveis nações insulares do Pacífico Sul através de orçamento de ajuda externa, do em vez de apoiar um Fundo Verde para o Clima das Nações Unidas.

O problema, salientam as ONG, é que a Austrália vai a cortar o orçamento de ajuda externa em 7,6 mil milhões de dólares ao longo dos próximos cinco anos, o que significa que irá reduzir o apoio aos países afectados pelo clima. Actualmente, o Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) estima que o custo de adaptação às alterações climáticas pode chegar aos 150 mil milhões de dólares anuais em 2030 (saiba mais aqui). [vídeo da cerimónia]

‘Raio do Dia’ para as Ilhas Marshall e prémio especial para a Shell

A distinção positiva do final da semana foi para as Ilhas Marshall, que receberam o ‘Raio do Dia’ por trazerem alguma luz sobre as contribuições previstas e determinadas a nível nacional (INDC). Este estado-ilha propôs períodos de 5 anos para os futuros compromissos de mitigação. Estes períodos mais curtos incentivam a acção precoce e podem reflectir a mais recente ciência climática. As ONG esperam que a proposta seja incluída no novo texto do projecto de decisão e que por lá permaneça no final da COP.

Foi também atribuído um prémio especial à Royal Dutch Shell, o “Sly Sludge’ (qualquer coisa como 'lama manhosa'), em virtude das tentativas manhosas de sequestrar a legitimidade do COP para proteger as suas estratégias de ‘business-as-usual’. Em Lima, a empresa tem estado muito ocupada a divulgar o potencial não comprovado das tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS). Muito convenientemente, esta panaceia tecnologica permitiria à indústria continuar a extração e queima de combustíveis fósseis a taxas sem precedentes. Mas a solução não engana ninguém, como demonstra o aumento do número de grupos que pedem o desinvestimento nos combustíveis fósseis e da lista de entidades que estão a desviar os seus investimentos da energia suja. 

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publicado por Quercus às 17:41

Custo de adaptação é 3 vezes superior ao previsto

Sexta-feira, 05.12.14

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Adaptarmo-nos a um mundo mais quente vai custar centenas de milhares de milhões de dólares e até três vezes mais do que as estimativas anteriores, mesmo que as negociações sobre o clima global consigam manter a subida da temperatura abaixo dos níveis perigosos, adverte um relatório da ONU lançado hoje aqui em Lima.

O primeiro relatório sobre o “intervalo” (gap) relativo à adaptação, efetuado pelo Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP), mostra um défice de financiamento significativo a partir de 2020, a menos que mais fundos dos países ricos sejam transferidos para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptarem a secas, inundações e ondas de calor, efeitos associados às alterações climáticas.

O relatório adverte que, sem novas medidas de redução de emissões de gases com efeito de estufa, o custo de adaptação vai subir ainda mais, sendo necessária uma ação mais ampla e mais dispendiosa para proteger as comunidades de um clima extremo provocado pelas alterações climáticas.

Os países ricos prometeram 9,7 mil milhões de dólares para o Fundo Verde para o Clima, mas o número está bem aquém da meta mínima de 100 mil milhões de dólares por ano a atingir em 2020.

O relatório afirma que os custos de adaptação poderão subir para 150 mil milhões de dólares por ano entre 2025/2030 e 250 a 500 mil milhões por ano até 2050, mesmo com base na suposição de que as emissões sejam reduzidas para manter um aumento de temperatura abaixo de 2 ºC acima dos níveis pré-industriais, como os governos concordaram previamente.

No entanto, se as emissões continuarem a aumentar à taxa atual - o que levaria a temperatura a subir bem acima 2 ºC – os custos de adaptação poderão atingir o dobro dos números referidos.

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publicado por Quercus às 20:47

Japão, Suíça e Brasil recebem galardão “Fóssil do Dia”, mas também já foi atribuído um “Raio do Dia” 

Quinta-feira, 04.12.14

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Há mais vencedores do “prémio” das ONG para os países com pior prestação nas negociações do clima, desta feita na COP20, que está a decorrer em Lima, no Peru. Na terça-feira, dia 2, o vencedor do "Fóssil do Dia" foi o Japão, devido ao financiamento de centrais a carvão e gás em países em desenvolvimento, em particular na Indonésia. 

Os japoneses estão a usar verbas destinadas ao combate às alterações climáticas para financiar tecnologias que continuam a causar os mesmos problemas. Para as ONG, não colhe o argumento de que é melhor financiar centrais a “carvão limpo” que as centrais tradicionais. 

Trata-se de uma visão pouco clarividente do que significa o desenvolvimento, dado que este tipo de centrais a carvão e gás não terão capacidade para gerar a energia necessária. Além disso, o preço dos combustíveis continuará a subir, pelo que a fatura será maior, assim como os impactos - muitos moradores já se queixam de que o lodo de carvão está a entupir os rios e matar os stocks de peixe, efeitos que não acontecem com as energias renováveis.

Em vez do cavaleiro de armadura brilhante que tenta parecer com os “fundos de arranque rápido”, o Japão é na realidade o dragão que comeu a donzela… Estas verbas deviam ter sido aplicadas em energias renováveis que resolvam os problemas da Indonésia. É para isso que serve o financiamento climático. [ver vídeo da cerimónia]

Suíça em primeiro e Brasil em segundo na quarta-feira

Ontem, quarta-feira, a distinção coube à Suíça, por ter-se oposto a quaisquer compromissos quantificados e juridicamente vinculativos sobre financiamento, mas também ter ameaçado os países em desenvolvimento de que esta reivindicação podia pôr em causa o resultado da COP20.

As ONG salientam que qualquer pessoa que escute a sociedade ou os cientistas sabe que é preciso fazer muito mais se quisermos manter o aumento da temperatura abaixo do limite internacionalmente acordado de 2°C. E para isso é fundamental prever um financiamento climático público que ajude os países em desenvolvimento a aumentar a escala das suas ações.

Houve outros países desenvolvidos, incluindo a UE e os EUA, que estiveram perto de ganhar um fóssil, dado que também rejeitaram fortemente compromissos em matéria de finanças. Mas foi o Brasil a receber o 2.º lugar, ao declarar que não existe uma dupla contabilização no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), um problema conhecido e documentado.

Pequenos Estados Insulares recebem primeiro “Raio do Dia”

Mas nem tudo são más notícias. A Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS) recebeu o galardão positivo, o ‘Raio do Dia’, por ser o primeiro grupo nesta COP a apoiar diretamente a eliminação total da poluição de carbono até ao ano 2050. O que torna esta afirmação ainda mais importante é que outros países juntaram suas vozes à AOSIS, nomeadamente os da Aliança Independente da América Latina e do Caribe (AILAC) e a Noruega.

Para as ONG, atingir esta meta até meados do século, a par de uma transição justa para 100% de energias renováveis, é a nossa única esperança para ficar abaixo do limite de 2°C. Para isso é preciso garantir o apoio financeiro e tecnológico suficiente para a transição dos países, começando, por exemplo, a mudar os subsídios e os investimentos dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.

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publicado por Quercus às 19:06

Relatório expõe impactos ambientais da extração de gás de xisto

Quinta-feira, 04.12.14

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O relatório "Fracking Frenzy" (ver PDF), divulgado recentemente pela ONG Amigos da Terra Europa, evidencia a expansão da exploração de combustíveis fósseis do tipo não convencional (como o gás de xisto) pelo recurso à fraturação hidráulica (“fracking”, em inglês) pelo sector petrolífero por todo o Mundo, e que os planos de desenvolvimento futuro deste tipo de técnica estão a colocar sérios riscos para o ambiente e as comunidades locais.

O estudo avaliada a situação de 11 países em zonas vulneráveis da América Latina (México, Brasil, Argentina), Ásia (Índia, Indonésia, China e Rússia) e África (Marrocos, Argélia, Tunísia, África do Sul) e as conclusões apontam que a fraturação hidráulica tem-se generalizado em ecossistemas mais frágeis do que aqueles onde a tecnologia começou a ser utilizada, nomeadamente em países sob grande escassez de água potável, em áreas de elevado risco sísmico, em regiões onde os aquíferos transfronteiriços são a principal fonte de água potável, etc.

A crescente exploração, à escala mundial, deste tipo de combustíveis fósseis, tem gerado muita controvérsia entre cientistas, empresas, decisores políticos, associações ambientalistas e a sociedade civil, devido ao seu modo de extração. Na América do Norte, mais de uma década de exploração destes combustíveis fósseis não convencionais deixou um sério legado de danos ambientais pelo recurso à fraturação hidráulica.

Esta técnica de perfuração consiste em injetar grandes volumes de água, sob pressão e com a adição de areia e químicos, provocando fraturas para extração do gás no subsolo. Os impactos ambientais são múltiplos, desde o uso de químicos e de grandes volumes de água, até à contaminação de solos e lençóis freáticos, poluição atmosférica e emissões de gases com efeito de estufa, com impacto nas alterações climáticas.

Apesar da controvérsia e das incertezas associadas à fraturação hidráulica, e mesmo considerando que a tecnologia ainda se encontra numa fase inicial de exploração, já é possível constatar inúmeras tentativas de empresas e governos para alterar os quadros jurídicos nacionais, tornando-os mais flexíveis, favoráveis e socialmente aceites para o uso generalizado esta tecnologia, em detrimento da proteção do ambiente e das populações locais.

O relatório apresenta, ainda, algumas perspectivas sobre os impactos dramáticos sobre as alterações climáticas que poderão ser agravadas com a expansão massiva da fraturação hidráulica à escala mundial, com destaque para os elevados custos de exploração pagos pelos países do Sul.

Com o início das negociações climáticas em Lima esta semana, este estudo relembra uma vez mais que não é possível apostar em falsas soluções energéticas, como a exploração de gás de xisto, para combater as alterações climáticas. 

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Mapa mostra as reservas de gás de xisto, em simultâneo com a localização das principais reservas subterrâneas de água potável e com o risco sísmico ao nível global.

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publicado por Quercus às 11:57

Precisamos de acabar com as emissões de carbono até 2050 para manter o aquecimento global abaixo de de 2°C

Quarta-feira, 03.12.14

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O que significa na prática manter o aquecimento global do planeta abaixo de 2ºC/1,5ºC? De acordo com o 5º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), após 2010 só podemos adicionar ao CO2 existente na atmosfera mais 1000 giga toneladas (ou 1 bilião de toneladas). Este é o limiar que nos permite uma probabilidade superior a 66% de manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC.

É o nosso “orçamento de carbono”. Para manter o aquecimento abaixo de 1,5 ° C a quantidade de CO2 adicional é consequentemente menor. Mas desde 2010 já gastamos cerca de 10% deste “orçamento”. Parando o aumento de emissões anuais globais hoje, em 25 anos usaríamos o resto do nosso orçamento e um terço seria gasto já até 2020. Como as emissões atuais ainda estão a aumentar, o nosso orçamento de carbono acabará ainda mais cedo. 

O que significa isto? Significa que é fundamental atingir o pico de emissões o mais cedo possível e um declínio das emissões ao nível global, para que seja possível alcançar a meta de longo prazo dos 2ºC/1,5ºC. Isto significa também que não devemos focar-nos na divisão das emissões entre países ou setores. É necessário eliminar as emissões de CO2 e rapidamente.

Este “orçamento de carbono” implica que as emissões de CO2 (maioritariamente resultantes da queima de combustíveis fósseis) precisam de ser reduzidas a zero até perto do ano 2050, se queremos ter uma certeza elevada de que conseguimos manter o aquecimento global abaixo de de 2°C e alguma certeza de que ficarmos abaixo de 1,5°C.

Isto significa também que não faz sentido continuar à procura de novos combustíveis fósseis, gastando milhões em subsídios no apoio à sua exploração. Já encontrámos o suficiente e cerca de 80% dessas reservas devem ser deixadas por explorar.

Obviamente, no espírito de equidade, que o IPCC considera ser a chave para o êxito da cooperação, os países com a maior responsabilidade e capacidade terão de começar primeiro a eliminar progressivamente as suas emissões fósseis, para além de fornecer apoio aos países mais pobres para que consigam fazer o mesmo. (adaptação deste artigo)

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publicado por Quercus às 09:34

IPCC apresenta argumentos fortes para uma meta de 1,5 °C

Terça-feira, 02.12.14

Há muitas pessoas que consideram um limite de 2 °C para o aumento da temperatura global em relação à era pré-industrial como um risco climático inaceitável. Para eles, 1,5 °C é o aumento máximo "para nos mantermos vivos" e o novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) mostra que têm razão.

Os recém-atualizados indicadores do IPCC designados "motivos de preocupação" (um gráfico que mostra o aumento de risco para os principais indicadores em amarelo, laranja e tons de vermelho) mostram que dois ou mesmo três dos cinco principais riscos poderão estar em níveis perigosos com 2 °C de aquecimento.

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Os riscos são mais facilmente percetíveis a uma escala regional, pelo que vale a pena perceber o que poderá acontecer com apenas 2 °C de aquecimento global:

Para a África, de nove riscos regionais chave, oito apresentam risco médio ou superior, com 2 °C de aquecimento, mesmo com elevados níveis de adaptação. Trata-se de problemas como o deficit hídrico, redução da produção de alimentos e propagação de doenças.

Para Pequenos Estados Insulares, altamente vulneráveis a eventos como o aumento do nível do mar e marés elevadas, e dependente de ecossistemas oceânicos, 2 °C seria um desastre.

Para a Ásia, os riscos de inundações catastróficas e ondas de calor letais estaria na média ou alta gama, mesmo com elevados níveis de adaptação.

Para a Europa, não haveria riscos médios relacionados com a disponibilidade de água doce e de calor extremo, mesmo, mais uma vez, com elevados níveis de adaptação.

Para Australásia, 2 °C seria realmente não deixar muita esperança para os ecossistemas de corais, o turismo, as pescas e as comunidades que dependem delas.

Para a América do Norte, 2 °C implicaria riscos elevados ou muito elevados relacionados com incêndios florestais e secas.

Para as Américas Central e do Sul, 2 °C, mesmo com elevados níveis de adaptação, implicaria elevados riscos de inundações e deslizamentos de terra provocados pelas chuvas, e grandes problemas para a disponibilidade de água em regiões semi-áridas ou com derretimento de glaciares.

Para os oceanos, os riscos relacionados com a 2 °C são particularmente devastadores: os riscos são muito altos para "biodiversidade reduzida, a abundância da pesca e proteção costeira por recifes de corais devido ao calor induzido ao branqueamento do coral com aumento em massa da mortalidade, exacerbadas pela acidificação do oceano".

Não é preciso olhar para o futuro. Hoje, com menos de 1 °C de aquecimento, já testemunhamos:

  • A camada de Gelo da Groenlândia perdendo gelo 6 vezes mais rapidamente (!) em 2002-2011 do que apenas uma década antes.
  • Extremos climáticos sem precedentes de alto impacto durante a década 2001-2010 (de acordo com a Organização Meteorológica Mundial).
  • As mais recentes descobertas da pesquisa sobre a cobertura de gelo da Antártida Ocidental, após o 5º relatório do IPCC mas refinando ainda mais a avaliação, sugere fortemente que os glaciares chave estão a atravessar um ponto de não retorno, fazendo com que, pelo menos um aumento de 1,2 metros do nível do mar seja inevitável.

O que isto significa é que cada nova tonelada de carbono emitida para a atmosfera é tornar a nossa vida pior. E quanto mais nós formos acima de 1,5 °C de aquecimento, maior será a necessidade de adaptação e compensação por perdas e danos.

A conclusão é bastante clara: temos de agir com base na ciência e apontarmos para um aquecimento máximo de 1,5 °C em vez de 2 °C.

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publicado por Quercus às 19:42

Portugal é um dos vencedores do "Fóssil do Dia" na COP20 devido à ausência de verbas para o Fundo Verde para o Clima

Terça-feira, 02.12.14

 

O primeiro "Fóssil do Dia" da COP20, em Lima, vai para a Austrália, Bélgica, Irlanda, Áustria, Islândia, Grécia e Portugal*, por serem os únicos países desenvolvidos que ainda não contribuíram financeiramente para o Fundo Verde para o Clima.

Depois de um conjunto de contribuições iniciais encorajadoras, alguns países do Anexo II da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas Sobre Alterações Climáticas) parecem pensar que podem ficar de fora, o que se traduz na ausência de vários milhões de dólares nos cofres do Fundo, dinheiro que fica a faltar para ajudar os países em desenvolvimento a reduzir a poluição e a adaptar-se aos impactos climáticos.

Isto não é aceitável e pode pôr em causa o acordo de Paris, sob o qual se espera que todos os países tomem medidas. Recado para estes ministros: não se esqueçam de assinar o vosso cheque antes de aterrarem em Lima.

O "Fóssil do Dia" é o galardão da Rede de Ação Climática (CAN, na sigla em inglês), que inclui a Quercus, para as piores prestações nas conferências internacionais sobre o clima.

(*lista aumentada já depois da cerimónia de divulgação mostrada no vídeo)

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publicado por Quercus às 10:03

Já começou a #COP20

Segunda-feira, 01.12.14

[Actualizado*] Está aberta a 20ª Conferência das Partes (COP20) da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorre até dia 12 em Lima, a capital do Peru (ver calendário). O primeiro discurso cabe a Marcin Korolec, ex-ministro do Ambiente polaco que presidiu à COP19, que destaca os avanços obtidos há um ano na conferência de Varsóvia. [ver vídeo]

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Segue-se a eleição de Manuel Pulgar-Vidal, ministro do Ambiente peruano, como presidente da COP20.

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“Estamos aqui para construir pontes, numa conferência histórica para o país e crucial para o mundo, que deve chegar aos compromissos concretos de que o mundo necessita”, diz num discurso dividido entre o inglês e o castelhano.

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"Aproveitemos a oportunidade para chegar a acordos concretos que aumentem a confiança entre os países, e dos cidadãos nos países. O mundo não espera que falhemos. Queremos que esta seja a COP que cimente as bases do novo acordo climático global”, diz o presidente da COP20. 

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Manuel Pulgar-Vidal assegura um processo aberto, democrático e participado em Lima, cidade que assinalará o dia 11 de Dezembro com o “Dia de Acção Climática”. Anuncia também a antecipação das habituais intervenções da sociedade civil no final das COP, nomeadamente das organizações representativas das mulheres e dos jovens. [ver vídeo]

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Segue-se Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção Quadro da ONU sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que começa por destacar o esforço peruano na criação de condições para a realização desta COP, nomeadamente a construção do espaço da conferência em apenas seis semanas. 

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Diz-se inspirada nas imagens simbólicas dos animais desenhados nas linhas de Nazca, estampadas na roupa que veste. "Temos de fazer história e de desenhar as linhas de acção climática, tão perduráveis como as linhas de Nazca" [ver discurso em PDF e em vídeo]. Segue-se Susana Villarán de la Puente, presidente da Câmara de Lima. 

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A autarca defende uma evolução cultural no sentido do desenvolvimento sustentável e pede compromissos globais e locais, nomeadamente nas cidades, fundamentais na luta contra as alterações climáticas. “Os autarcas têm de ser ouvidos nestas COP”, diz. [ver vídeo]

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A seguir, é exibida uma mensagem de boas-vindas do presidente do Peru, Ollanta Humala, que reforça a vontade de sucesso da COP20 [ver vídeo]. A cerimónia de abertura conta ainda com um momento multimédia, com a exibição de um filme e a actuação de músicos que tocam instrumentos artesanais produzidos a partir de resíduos [ver vídeo]. 

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O próximo orador é Rajendra Kumar Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que reforça as conclusões do Quinto Relatório de Avaliação

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“Para limitar a subida da temperatura do planeta a 2ºC será necessário atingir o nível zero ou negativo de emissões de gases de efeito de estufa até ao final do século”, alerta. [ver vídeo]

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Mesmo no cenário mais optimista, o IPCC prevê a subida do nível dos oceanos, avisa Pachauri, para quem a janela de oportunidade para a ação climática está rapidamente a fechar-se. Seguem-se os trabalhos da COP e da CMP (conferência das Partes do Protocolo de Quioto). Os trabalhos podem ser acompanhados em directo aqui. (*cobertura em tempo real) [ver vídeo integral da cerimónia]

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publicado por Quercus às 15:28